Reflexões sobre a proposta de um “Novo Sistema de Protocolo IP” para o ITU-T
Enviado em 04.01.2021

Reflexões sobre a proposta de um “Novo Sistema de Protocolo IP” para o ITU-T

Desde que foi criada, oficialmente, em 1969 nos Estados Unidos, a internet tem passado, com cada vez mais velocidade e frequência, por atualizações e inovações ao longo dessas décadas todas

Desde que foi criada, oficialmente, em 1969 nos Estados Unidos, a internet tem passado, com cada vez mais velocidade e frequência, por atualizações e inovações ao longo dessas décadas todas. Criou-se uma infinidade de novos serviços, aplicativos e, claro, protocolos, que são – e serão – desenvolvidos e implantados no mundo inteiro. Um deles, ainda em análise, masjá causando muito barulho, tem chamado a atenção da comunidade internacional de especialistas do setor: é chamado provisoriamente de “Novo Sistema de Protocolo IP”, que é um novo protocolo de transporte com melhorias em como o Sistema de Nomes e Domínios (DNS) é acessado, além de mecanismos de suporte de aplicativos sobre Ethernet e IP redes. Apesar de trazer avanços nas discussões e nas aplicações práticas do que já existe hoje, o novo sistema tem gerado controvérsias e recebido críticas.

As discussões a respeito das mudanças, inovações e transformações na internet envolvem diversos agentes protagonistas do setor. São eles provedores de conteúdo, provedores de internet, profissionais desenvolvedores de navegadores, fabricantes de máquinas e equipamentos, pesquisadores e, até mesmo, usuários da internet. Enfim, todos especialistas no que fazem e conhecedores do processo ou de seu uso. De fato, esses personagens identificam necessidades de melhorias o tempo todo.

Entre essas melhorias, destacam-se algumas, como oferecer suporte a redes heterogêneas e disponibilizar, para redes futuras, mais dispositivos, senão corremos o risco de transformar em ilhas os sistemas de rede atuais. Além disso, é preciso sempre pensar na segurança e na capacidade de suporte de taxas e transferências ultra-altas. É sobre bases como essas que o “Novo Sistema de Protocolo IP” se apoia para justificar a necessidade de mudanças e transformações na internet, argumentando sobre os protocolos atuais já estarem ultrapassados. O problema é que, sobre estas mesmas bases, outras organizações estão trabalhando, justamente, para enfrentar os grandes problemas. Um novo protocolo, todavia, deve apontar os motivos pelos quais os trabalhos atuais não são suficientes. E aí estão envolvidos bilhões e bilhões de dólares em pesquisas, estudos e implantação de novos protocolos. Não é barato sequer estudar melhorias na internet.

Acontece que, por trás de todo esse pano de fundo, existem questões muito mais amplas e complexas em jogo. A política e a economia são duas delas, por exemplo. É da China que vem a proposta de projetar uma nova rede de informação e comunicação, que inclui um novo sistema de protocolo, que pretende suprir as necessidades de uma futura rede [C83]. Estão juntos a Huawei, China Mobile, China Unicom e Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China (MIIT) com a proposta de transformar a estratégia do ITU-T. O argumento é de que há a necessidade de se desenvolver um sistema mais profundamente acoplado a partir de um novo sistema de protocolo. O que significa, em última instância, em substituir o sistema TCP/IP, amplamente utilizado no mundo.

Ao menos três grandes áreas precisam de melhorias, como apontadas pelo grupo chinês: conectar ManyNets (redes heterogêneas), rede determinística e segurança intrínseca. Além dessas, outras duas áreas também são contempladas pelo estudo: solicitação personalizada definida pelo usuário e taxa de transferência ultra-altas. Esses aspectos se debruçam sobre questões importantes, as quais alguns outros estudos também já definiram protocolos ou lançaram luz acerca dos problemas existentes.

Mas vamos por partes. O novo sistema busca interconectar os ManyNets ou redes heterogêneas, um conjunto de redes de acesso muito diferentes entre si, que vão desde conexão de rede entre o espaço e a Terra até a internet das coisas, a rede industrial, entre outros. Se há diversidade de redes, é preciso criar formas de se pensá-las. Entretanto, a existência dessa grande gama de redes pode criar ilhas independentes. O “Novo Protocolo da Internet” quer reunir tudo num espaço de endereço de comprimento flexível, onde caibam todos os possíveis e imagináveis endereços futuros, como IPv4, IPv6, ID semântica, ID de serviço, ID de conteúdo, ID de pessoas e ID de dispositivo. Hoje existem mais de 60 mil ilhas independentes, chamadas de sistemas autônomos ou ASN, porém, questiona-se a eficácia do desenvolvimento de um novo protocolo na resolução de problemas como esse. Há quem acredita que definir um novo sistema não adiantará nada.

Já em relação a rede determinística, o “Novo Protocolo da Internet” aponta que há desafios para se implantar QOS e atender à demanda de aplicativos e serviços com requisitos de baixíssima latência e jitter, por exemplo. Entre eles estão realidades, não tão novas assim, mas com inovações o tempo todo: telemedicina, cirurgias remotas, aplicações industriais e veiculares. Acerca dessas novas tecnologias, há uma série de grupos de trabalho e de estudos voltados a encontrar soluções e melhorias. Entre eles: IEEE 802.1 Time Sensitive Networking (TSN) Task Group [TSN], Grupos de trabalho Deterministic Networking (detnet) da IETF e Reliable and Available Wireless, 3GPP e ITU-T SG15. A grande questão é: por que o “Novo Protocolo da Internet” não se refere a esses estudos ou, ao menos, justifica a necessidade de um trabalho (e gasto) dobrado? 

O grande problema de se levar adiante um projeto como esse, sem citar ou fazer referência a estudos paralelos com o mesmo objetivo, é não levar em conta os esforços que já foram feitos, nem dar a possibilidade de potencializar o trabalho a fim de alcançar o resultado mais rapidamente. Por que trabalhar dobrado se podemos unir forças? Esquece-se, também, de questões que não serão resolvidas por um novo sistema, itens técnicos mesmo como relações comerciais, marcos regulatórios e tantos outros aspectos.

Esse desafio carrega consigo diversas áreas, desde autenticidade (falsificação de endereço de IP), responsabilidade versus privacidade, disponibilidade, confidencialidade e integridade. Todos sabemos que é necessário aumentar e desenvolver a segurança e a confiança da rede, estabelecendo modelos que sejam aplicados e melhorem o compartilhamento de dados, deixando-os seguros e confiáveis. Entretanto, a última década assistiu a um desenvolvimento sem igual a partir de investimentos bilionários para fortalecer as redes. Trabalho e recursos poderiam ser economizados, da mesma forma que se fossem levados em conta as diferenças entre o que poderia ser usado em uma nova arquitetura e o que poderia utilizar a infraestrutura de roteamento atual.

O mesmo ocorre, por exemplo, em relação à necessidade de uma taxa de transferência ultra-alta para dar suporte a projeções futuras. Um exemplo disso é a comunicação holográfica, uma tecnologia relativamente nova que, antes, só víamos na ficção científica. Apesar de já haver pesquisas nesse sentido (entre eles, ITU-T SG15 em transporte óptico, a Força-Tarefa IEEE P802.3bs em Terabit Ethernet), o novo estudo está orientado para Big Packet Protocol (BPP), especificamente da Huawei, que enviou contribuições para o início dos estudos de um novo protocolo de transporte.

Na realidade, protocolos de transporte são desenvolvidos o tempo todo, desde sempre, conforme a necessidade das redes e dos aplicativos. E isso não inviabiliza ou anula qualquer nova proposta. Todavia, deve-se levar em consideração os protocolos já implantados e os que estão em investigação para garantir que as novas estruturas estejam em consonância e possam ser implantadas de forma viável. Senão criam-se diferentes estruturas que não se conversam entre si, dificultando a usabilidade.

Assim como os protocolos de transporte, diversas outras tecnologias também foram estudadas ao longo dos últimos anos. Essas, sim, são lembradas e citadas pelo novo estudo: codificação de rede, roteamento orientado a serviços, computação em rede e roteamento de origem. Concomitantemente, o novo protocolo tem a preocupação de que o sistema atual acabe em ilhas de não interoperabilidade, problema que pode ser ocasionado pela própria implantação do novo protocolo. E tem mais: nos próximos anos as redes ainda vão migrar para IPv6 e ainda haverá a necessidade de suportar bolsões de IPv4. Por isso, é extremamente importante um protocolo compatível com as versões anteriores e interoperável com IP, seja v4 ou v6. Caso contrário, criar-se-á o mesmo problema de migração de rede.

Ademais, o “Novo Protocolo da Internet” poderá encontrar problemas semelhantes aos já enfrentados pela realidade atual. Por exemplo, a complexidade, o custo de implantação e operação de sistemas acoplados a aplicativos em terminais e até elementos de rede legados. Embora padronizados anteriormente, nunca se traduziram na prática pela alta complexidade e alto custo. Algo que pode se repetir, já que esses custos podem superar os benefícios e as vantagens dos serviços. Esse tipo de implantação está vinculado a acordos comerciais, contabilização e faturamento do uso do serviço, alocação de recursos e uma série de outros itens que nos levam à compreensão de como foi estruturada a arquitetura da rede.

E percebeu-se a importância de se construir uma arquitetura de rede a partir do feedback de quem as utiliza, englobando o ciclo de implementação, implantação e design de protocolo. Isso está padronizado e ajuda a corrigir erros e bugs dos sistemas. Sabe o que tem sido eficaz nesse sentido? Identificar serviços e requisitos e, depois, trabalhar com as organizações, padrões adequados para aprimorar o que já existe. E, assim, se necessário, desenvolver novos. De fato, as propostas de novos protocolos e arquiteturas precisam ter sentido e demonstrar, comprovadamente, que o trabalho existente não é suficiente para resolver os problemas. Senão, é dinheiro jogado fora.

Antes de tudo, é importante também que a tecnologia atinja um determinado nível de maturidade para que se possa implantar padrões e novidades, sejam quais forem. Porque todo esse processo envolve uma série de custos, proteção de investimento e compatibilidade com a base existente. Afinal, até que se implante todo o sistema, é preciso trabalhar concomitantemente e não se pode correr o risco de que, porventura e de repente, algo não esteja compatível. Talvez fosse melhor que o trabalho em novos sistemas de protocolos estejam unificados às pesquisas e estudos já existentes, levando em conta os esforços atuais, economizando tempo e dinheiro e potencializando os resultados, porque o Grupo FG NET-2030 tem a tarefa de investigar as arquiteturas de redes futuras, os requisitos, casos de uso e recursos das redes para 2030 e além. O IETF, IEEE, 3GPP, ETSI e outros SDOs também estão ocupados desenvolvendo novos protocolos, e aprimorando os protocolos atuais, para fornecer novos recursos. Estamos de olho para aonde está discussão vai nos levar porque ainda temos muitos capítulos a percorrer antes de termos uma definição.

Lacier Dias – Professor da VLSM para IPv6, Arquitetura, Design e Roteamento para redes, Consultor para provedores de internet e redes corporativas. Diretor técnico da Solintel.

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