Enviado em 02.10.2019

ISPs na Telefonia: SCM e STFC

O contexto brasileiro de Telefonia, ainda possui um forte foco nos modelos tradicionais de Telefonia, oferecidos há anos pelas principais operadoras.

O contexto brasileiro de Telefonia, ainda possui um forte foco nos modelos tradicionais de Telefonia, oferecidos há anos pelas principais operadoras. Apesar do grande volume de indicadores que são coletados mensal e anualmente das diversas prestadoras, é uma interrogante frequente o benefício de implantação de um modelo STFC dentro dos serviços do provedor para quem pensa naqueles modelos tradicionais.

Porém a internet que vem compreende diferentes canais de comunicação sob o controle de mais de uma operadora ao mesmo tempo, redes sobrepostas e novas infraestruturas o que possibilita que os provedores criativos desenhem novos planos que abrangem mais serviços e nutrem os potenciais clientes.

É verdade que os serviços celulares e planos móveis estão presentes na maioria dos espaços povoados do território mas não podemos ver a existência do serviço SMP (Serviço Móvel Pessoal) como uma concorrência do STFC (Serviço Telefônico Fixo Comutado) e sim como um serviço complementar: a partir da existência de um modelo de Telefonia IP ou VoIP, os números obtidos mediante a licença STFC deixam de ser simplesmente “fixos” e o usuário pode dispor da linha telefônica em qualquer lugar do mundo, seja no seu telefone celular, no computador, ou acessando diretamente na web do serviço desde qualquer dispositivo. Além disto, os serviços associados à tecnologia IP permitem entregar uma gama de funcionalidades avançadas que repercutem automaticamente como Valor Agregado na mão do cliente.

Hoje os provedores podem escolher entre trabalhar sob a licença STFC de um terceiro, fazendo o papel de “revenda” de Telefonia, ou optar por tirar uma licença STFC própria, e montar a própria infraestrutura para entregar o serviço. Uma escolha que a futuro, pode repercutir de diferentes jeitos na empresa.

Visão

O “ISP” (Internet Service Provider) tem que, aos poucos tirar a “i” e se converter num “SP” (Service Provider). A maioria dos amigos provedores coincidirão em que a venda de link não é suficiente quando se começa a pensar em concorrência, e se fizermos uma pesquisa, os resultados indicariam que tudo mundo está à procura de colocar novos produtos e serviços acima de rede que tanto custou montar.

A implantação de Telefonia no provedor colabora nessa oferta de serviços múltiplos, abrindo também a janela para entrar com outro tipo de soluções correlativas como PABX Virtual para clientes corporativos, Interfonia para Condomínios, Soluções de Comunicação Unificada para grandes empresas, serviços de comunicação móvel para áreas rurais e a possibilidade de participar em importantes pregões e licitações dos Estados e Prefeituras que geralmente requerem destes serviços para trabalhar com uma oferta integral de serviços.

Se o provedor possuir também uma licença STFC própria poderia nesse caso dispor de numeração própria nas cidades atendidas, poderia fazer portabilidade dos números telefônicos atuais dos clientes que estejam com outra operadora, não dependeria de terceiros para oferecimento dos seus serviços, e conseguiria dar um valor adicional a toda a operação.

Durante anos houve discussões, ANATEL mediante, sobre a possibilidade da criação de planos de numeração para as autorizadas com licença SCM (Serviço de Comunicação Multimídia). Se bem essa discussão não morreu, ficou um pouco no esquecimento atualmente visto que os valores para a outorga STFC tem sido reduzidos consideravelmente (atualmente R$ 400) e no mercado já existe maior oferta de equipamentos necessários para montar a infraestrutura STFC, o que tem reduzido também os custos para o montado dos POP (Point of Presence) de Telefonia. No futuro próximo, espera-se ainda mais redução dos custos a partir da implantação de interconexões entre operadoras no protocolo SIP, o qual permitiria trabalhar com menos Hardware dentro da estrutura de operadora, e dispensar a contratação ou conexão através de links E1 (e protocolo SS7) com as operadoras concessionárias.

Desafios

A entrada na Telefonia por parte do provedor requer os seguintes pontos:

  • Definir os novos Serviços a serem oferecidos pelo provedor, tendo em conta a compatibilidade com os planos atuais e visando sempre a convergência de produtos dentro de um pacote que gere Valor Agregado ao cliente final
  • Montar a estrutura de Telefonia com um Softswitch adequado que permita o gerenciamento completo e o controle de toda a operação
  • Obter o plano de numeração para poder operar, através da outorga STFC
  • Montar os POP em cada cidade a atender (dependendo do Plano de Numeração Nacional, das áreas locais de faturamento e das possibilidades de interconexão, há casos onde pode-se atender várias cidades desde um mesmo POP)
  • Realizar em cada cidade as interconexões com as operadoras concessionárias, o que permitirá a entrada e saída de ligações desde/até a Rede Telefônica Pública Comutada
  • Cumprir com o Regulamento do STFC, o Regulamento Geral de Interconexão e demais obrigações

Elementos como o Softswitch e alguns equipamentos de interconexão, indispensáveis para a operação, podem ser contratados em modalidade SaaS (Software como Serviço) o que evita o investimento (Capex) e permite trabalhar num modelo pay-per-use com custos recorrentes (Opex) para viabilizar o começo e posta em funcionamento da operação.

Portanto, são necessárias algumas mudanças no provedor para começar com a implantação de Telefonia, porém hoje dia não é necessário de grandes investimentos para conseguir o objetivo.

Resulta também indispensável a mudança dos modelos comerciais, e a criatividade do provedor para combinar os serviços e regular a taxa de serviço para poder escalar para cima ou para baixo logrando ser competitivos.

Soluções

Muitos dos desafios mencionados são simples de superar com ferramentas confiáveis. Algumas das soluções possíveis são:

  • Criação de Pacotes comerciais com valor agregado pro usuário, com pequenas mudanças no valor de plano atual: Internet + Telefonia + TV (se for o caso); planos com franquia fixa de minutos locais, longa distância, etc.; planos com Telefonia + PABX Virtual para clientes corporativos; planos com chamadas locais ilimitadas.
  • Utilizar Hardware e Software de Telefonia de empresas reconhecidas do mercado, que tenham experiência, cases de sucesso e estejam homologadas. Mesmo seja tentador as vezes optar por soluções free ou open-source, lembrar que as vezes a manutenção das mesmas pode ser mais cara do que pagar por um serviço confiável para um terceiro. Ter sempre em conta que as tecnologias abertas, sempre estão mais expostas a ataques e tentativas de hacking o que pode gerar importantes despesas senão se tomam os cuidados necessários (em tecnologia, geralmente “o barato custa caro”).
  • Aproveitar um consultor com experiência na regulamentação e projetos técnicos STFC: hoje o mercado conta com vários profissionais dedicados a estes itens, os quais permitem reduzir os custos para obter a outorga, fazer as interconexões com as operadoras sem crise, e integrar todos os sistemas contratados.
  • Integração: é indispensável na hora de escolher os componentes da solução, que os mesmos tenham integração (ou possibilidade de integração) entre eles, e com o resto dos componentes do provedor. Integrar por exemplo, o faturamento de todos os serviços no ERP é um jeito de facilitar a vida do financeiro/administrativo na diária.
  • Valor Agregado: Soluções que além de Telefonia permitem oferecer serviços complementares como PABX Virtual, Ramal Mobile, Comunicações Unificadas, etc. são importantes, visto que permitem captar maior quantidade de potenciais clientes, fortalecem o vínculo com os clientes atuais, e preparam o provedor para poder oferecer variedade de serviços aos clientes finais.

 

Adrian Lovagnini – Engenheiro em Telecomunicações com formação em finanças. Atualmente é Gerente de Operações na VoIP Group.

Comentários