Enviado em 17.07.2019

Governança Corporativa na prática

Entenda como esse sistema de gestão vai fazer o seu provedor regional dar um salto de competitividade, ganhar valor de mercado e credibilidade perante investidores

Gerenciar uma empresa no Brasil é um desafio e tanto. A missão fica ainda mais difícil quando o negócio caminha sem regras e diretrizes claras de como lidar com questões básicas do dia a dia. Em uma companhia com dois ou mais sócios, por exemplo, isso pode se tornar um grande problema. Enfim, de quem é a palavra final sobre determinado projeto? Impasses como este podem ser evitados com a implementação de boas práticas de governança corporativa.

Para pequenas empresas, como boa parte dos provedores regionais, o termo pode soar complicado e distante. No entanto, trata-se simplesmente de “colocar ordem na casa”. Para adotar esse sistema de gestão é necessário promover uma mudança de cultura dentro da companhia. As primeiras medidas passam pela criação de um Conselho de Administração. Este fará o alinhamento dos objetivos da empresa aos interesses dos acionistas.

As boas práticas da governança corporativa garantem o equilíbrio da relação da empresa com seus colaboradores e a sociedade, a solução de possíveis conflitos entre acionistas com interesses distintos e o controle adequado da gestão e administração. O sistema é dividido entre objetivos e princípios. Os primeiros se referem a recomendações práticas; alinhamento de interesses; preservação e otimização de valor econômico de longo prazo; facilidade no acesso a recursos; qualidade da gestão; e longevidade.

Já os princípios estão ligados à transparência, equidade – imparcialidade e lisura na maneira de agir -, prestação de contas e responsabilidade corporativa. Como se pode perceber, o compliance passa a ser importante para garantir parte dos princípios, ou seja, que a empresa esteja em dia com normas, controles internos e externos, além das políticas e diretrizes estabelecidas para o negócio. Tais princípios compreendem, basicamente, a gestão pelo exemplo.

Desafios

Dentro das companhias, o principal desafio ao implantar as boas práticas de governança está relacionado ao “divórcio” entre propriedade e gestão, ou seja, em dissociar o capital da gestão. Quando uma empresa implanta esse sistema, a propriedade passa de agente ativo para passivo. Os interesses não são simétricos e os conflitos começam a ser observados. Os acionistas, normalmente, desligam-se da administração, os “capitães” da indústria são substituídos por executivos contratados e os objetivos deixam de se limitar à maximização de lucros.

Um problema que deve ser visto com atenção é o que chamamos de “conflitos de agência”, ou seja, possíveis confrontos de interesses entre acionistas e gestores, ou acionistas majoritários e minoritários, que costumam ter origem na dispersão do capital e separação entre propriedade e gestão. Em geral, esses conflitos são derivados do oportunismo de gestores face à ausência dos acionistas. É bom lembrar que o desenvolvimento da governança corporativa ocorre a partir do bom relacionamento entre acionistas e corporação, a eficiência da atuação da direção executiva e a constituição de conselhos de administração.

Stakeholders

São descritas pelo mercado como stakeholders todas as partes interessadas e que devem estar de acordo com as práticas de governança corporativa executadas por uma empresa. Quanto ao regime legal, esses stakeholders podem ser acionistas ou cotistas, ter participação majoritária ou minoritária; a gestão pode contar com participantes ativos ou outorgantes; o controle pode ser feito com integrantes do bloco ou fora dele; e quanto à classe de ações, estas podem dar ou não direito a voto e veto nas tomadas de decisões dentro da companhia.

Os stakeholders internos estão efetivamente envolvidos com a geração e monitoramento de resultados. São os integrantes dos órgãos de governança, como direção executiva, conselhos de administração e fiscal, auditorias independentes e colaboradores. Já os externos estão integrados à cadeia de negócios, como credores, fornecedores, clientes. Também se incluem aí governos, associações e comunidades locais que estão no entorno do ambiente em que a empresa atua.

Modismo

Diante de tantos desafios, o provedor regional pode se perguntar: “governança corporativa é modismo?” A resposta é não e isso se comprova com números. Na evolução do mundo corporativo, as 500 maiores empresas, em 1955, tinham 37,66% das receitas operacionais. Em 2013, as 500 maiores empresas já eram responsáveis por 76,68% desse montante. Isso significa que as grandes empresas que adotam a governança corporativa geram resultados mais expressivos e não só financeiros. Elas também influenciam na vida das pessoas que ali trabalham e na sociedade onde estão inseridas.

Vantagens

A implantação da governança corporativa promove, internamente, mudanças societárias, realinhamentos estratégicos e reordenamentos organizacionais. Externamente, as transformações ocorrem no ambiente de negócios e nas revisões institucionais. As melhores práticas mobilizam o mercado de capital, aberto ou fechado, o crescimento das corporações e desenvolvimento das nações.

Só para ter uma ideia, ao aderir a esse modelo de gestão, as organizações melhoram a imagem institucional, aumentam a demanda por ações, ganham valor de mercado. Os investidores, por sua vez, garantem segurança quanto aos direitos que possuem no negócio, qualidade das informações e acompanhamento, maior precisão no valor de mercado da empresa e melhor gestão de riscos.

E o mercado acionário tem acesso a uma alternativa viável de capitalização, com o aumento das emissões de ações e maior liquidez com companhias cada vez mais transparentes. Já a economia nacional é beneficiada pela canalização de poupanças para a capitalização das empresas, fortalecimento e expansão das corporações, dinamização da economia, democratização do capital e sustentação do crescimento.

Um dos principais desafios para as empresas, nesta década, será a transição para o capitalismo sustentável, baseado na redução do  impacto, no meio ambiente, das mercadorias e dos processos de produção, através da reciclagem ou maior eficiência energética e tecnológica. Esta promete ser uma das mais complexas revoluções que a espécie humana deve vivenciar. Produtos, serviços e mercados enfrentarão tensões no curto e longo prazos. E os negócios geridos pelos princípios da governança corporativa devem comandar esse processo de mudança cultural. Pense nisso!

Asshaias Felipe – Engenheiro Eletricista formado pela Universidade Norte do Paraná, pós-graduado em Telecomunicações pela Universidade Estadual de Londrina, MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas, diretor executivo da Solintel e Moga Telecom e Sócio fundador do projeto TelCont.

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